top of page
Buscar
  • barbarabiscaro4

VOZERIO RESPONDE





Oi Barbara! Queria te perguntar se você não tem uma indicação bibliográfica sobre voz no teatro que fale sobre a entonação, etc.

O meu interesse é, por exemplo, por essa fala com entonações exageradas e que podem até sugerir o canto tipo no teatro Kabuki ou no cabaré. É pro meu artigo sobre sprechgesang.

Outra coisa que precisaria é algo sobre o coro grego, pois acho que pode ter a ver!


Oie! A pergunta é interessante porque é fruto de um olhar que está buscando contemplar as estéticas vocais tanto do teatro quanto da música para entender o Sprechgesang.


A primeira consideração que eu faria é pensar na palavra “entonação” – por quê usamos essa palavra e, ela faz sentido em todos os contextos? Porque no teatro, principalmente nas práticas vocais mais atuais, já nos aproximamos muito mais da dança, das teorias cognitivas e da educação somática do que do canto tradicional e da música ocidental tonal como tradição formativa para a musicalidade do performer. Daí palavras como essa, a meu ver, se tornaram um pouco limitadas diante da gama de olhares que já se lançou para isso.


Os livros de referência mais geral sobre a vocalidade no teatro oriental são o “Zeami: cena e pensamento Nô” do Sakae M. Giroux e “Teatros Bunraku e Kabuki: uma visada barroca “ do Darci Kusano. Nessa bibliografia tem que fuçar porque são livros que abordam uma variedade enorme de aspectos sobre esses teatros.


Depois eu recomendaria um livro que tem sido o meu de cabeceira, o “The New Music Theater” do Salzman e do Desi. Ali eles fazem uma teoria bastante atualizada sobre as relações entre música e teatro e passam pelo Sprechgesang, pode ser de seu interesse.


Sobre a relação com o coro grego: os livros que abordam uma “possível” imaginação das sonoridades das vozes no coro grego, na maior parte dos que eu entrei em contato, acabam dando uma visão, a meu ver, um pouco tendenciosa pois não levam em consideração certos aspectos sobre a musicologia e a etnomusicologia mais atual, e acabam fazendo análises muito limitadas. Mas como é uma área que eu não domino muito nem me debrucei em meu doutorado, pode ser que tenham livros ou textos mais atuais que possam preenchem essa lacuna. Eu estudo bastante o livro “O canto dos afetos” do Ibaney Chasin, que publicou a carta original do Girolamo Mei com as bases estéticas do que seria a ópera em seu surgimento. É meio um senso comum dizer que a ópera nasceu de uma reconstituição dos teatros gregos, uma ideia de “teatro total” . Mas eles sabiam que era uma reconstituição imaginativa, uma metáfora, pois era impossível saber como “soava” de verdade aquilo tudo. Eles foram geniais e deram início a praticamente a história do teatro-música no ocidente, então eu me concentrei (até pela minha formação) nessas narrativas de reconstituição do teatro grego.


Na minha tese (Vozes Nômades) eu passo pelo Sprechgesang, se te interessar está no texto Reinvenções de Escuta. Mas é só uma reconstituição mais histórica mesmo sobre o processo das intersecções entre teatro e música. Aliás, dá uma olhada na minha bibliografia lá, vais ver essa galera toda referenciada certinho.


Uma estética vocal que seria um paralelo muito interessante do ponto de vista formal é o trabalho de Antonin Artaud sobre as glosolalias e a sua relação estreita com a música experimental de seu tempo, na França. Vale a pena pesquisar, tem bastante material publicado já na área do teatro. Eu estudei isso através de um livro chamada “Teatro de Voci”, mas está em italiano. Tem um dossiê de voz na Revista Urdimento (da UDESC) bem completo, tem uma revista do teatro nova dedicada à voz que é a Voz e Cena, que inclusive tem recebido atenção dos musicólogos mais prafrentex (acabei de avaliar um artigo incrível sobre o Alan Berg, por exemplo).


Imagem: capa de disco da obra musical Pierrot Lunaire, de Arnold Schöenberg, peça emblemática da estética do Sprechgesang.

17 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page